

Uma composição artística reunindo diversos retratos do filósofo Walter Benjamin em diferentes formatos.
Imagine a seguinte cena contemporânea: você digita uma frase curta em um gerador de imagens e, em poucos segundos, o sistema entrega uma obra inédita e a imagem parece uma fotografia real, uma pintura clássica ou uma ilustração detalhada. O que acontece com a originalidade nesse cenário? Como fica a autenticidade quando sistemas geram imagens indefinidamente? Quem detém a autoria dessas criações visuais? Essas perguntas parecem exclusivas do nosso século. Contudo, Walter Benjamin já investigava dilemas semelhantes há quase cem anos. O aniversário de nascimento desse pensador ocorreu no dia 15 de julho de 1892. A data oferece uma excelente oportunidade para revisar suas ideias. Benjamin não previu a internet e tampouco antecipou a inteligência artificial. Porém, criou um vocabulário essencial para entender a cultura contemporânea. Afinal, hoje, copiamos, editamos e distribuímos conteúdos instantaneamente e as capacidades da IA generativa extrapolam os limites da reprodutibilidade técnica a cada iteração.
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Walter Bendix Schönflies Benjamin nasceu em Berlim, atuou como filósofo, ensaísta, crítico literário e teórico da cultura. Sua trajetória intelectual marcou profundamente o século XX, pois analisou as transformações urbanas, a literatura e os meios de comunicação emergentes. Observou de perto o impacto inicial da fotografia e do cinema. Suas reflexões ajudam a decifrar o consumo cultural moderno. Benjamin viveu em uma época de intensas mudanças tecnológicas e políticas, mas precisou fugir da perseguição nazista devido à sua origem judaica, porém, infelizmente, sua vida terminou de forma trágica em 1940. Apesar disso, seu legado teórico sobreviveu e ganhou força. Hoje, pesquisadores de comunicação, tecnologia e artes visuais recorrem frequentemente aos seus textos porque nos ensina a olhar para as mídias além de sua função técnica.
O ensaio mais famoso de Benjamin aborda diretamente a tecnologia. Escreveu A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica (que tem o título original em alemão, Das Kunstwerk im Zeitalter seiner technischen Reproduzierbarkeit) inicialmente em 1935, porém, revisou o texto diversas vezes entre 1935 e 1939. Uma importante versão em francês circulou em 1936, mas não existe uma única versão definitiva desse ensaio. E essa multiplicidade de versões reflete o próprio método de pensamento do autor, pois o texto investiga uma mudança radical na história da cultura. Afinal, pela primeira vez, a tecnologia permitia reproduzir imagens e sons em escala industrial e essa transformação alterou a relação do público com a arte. O ensaio não apenas descreve o surgimento de novas mídias, mas propõe uma teoria completa sobre a percepção humana, pois a reprodutibilidade técnica reconfigurou o valor das imagens na sociedade moderna.
Obras de arte sempre aceitaram cópias, porém, eram discípulos copiavam pinturas de seus mestres para aprender técnicas, oficinas que reproduziam imagens em larga escala ou escultores que moldavam réplicas de estátuas famosas. Além disso, a xilogravura e a litografia também permitiram a circulação de desenhos. Contudo, a verdadeira ruptura ocorreu com a reprodução técnica moderna quando a fotografia e o cinema mudaram as regras do jogo e a tecnologia tornou a reprodução o elemento central da produção cultural. A câmera fotográfica captura instantes com precisão mecânica e o cinema cria obras que já nascem para a cópia, já que um filme não possui um original único exibido numa sala especial e existe apenas por meio de cópias projetadas em várias telas simultaneamente.
O conceito de aura domina os debates sobre o ensaio de Benjamin. Muitas pessoas confundem a aura com uma energia mística ou mágica. Na verdade, a aura possui um significado muito mais concreto e histórico e representa a presença singular da obra em um determinado tempo e lugar. A aura envolve a autenticidade do objeto e sua história material e estabelece uma distância simbólica entre a criação e o observador. Pense na experiência de ver a Mona Lisa no Museu do Louvre. Você enfrenta filas e observa a pintura original protegida por vidro. Essa experiência carrega o peso da história daquela tela específica. Agora, imagine ver uma fotografia da Mona Lisa na tela do celular. A imagem informa sobre a pintura, mas elimina a distância e a presença física. A reprodução técnica retira o objeto de seu contexto exclusivo.
A reprodução técnica levanta dúvidas sobre o valor do original porque uma cópia digital perfeita carrega os mesmos pixels da imagem inicial. Então: o que difere a primeira versão de um arquivo baixado milhões de vezes? Benjamin explica essa questão por meio da transição de valores. Historicamente, a arte possuía um forte valor de culto. As obras existiam para rituais religiosos ou tradições reservadas. Muitas vezes, o público geral nem sequer via essas criações. Com a tecnologia, o valor de exposição ganha protagonismo e a obra passa a existir para alcançar o maior público possível, mas a autenticidade material perde força diante da necessidade de circulação. Hoje, criadores produzem imagens prioritariamente para gerar visualizações e engajamento, então o alcance e a viralização substituem a reverência ao objeto único. O original importa menos quando o objetivo principal é dominar a economia da atenção.
Benjamin percebeu que as mídias alteram a própria percepção humana. A fotografia e o cinema não apenas mostram o mundo, mas ensinam o público a enxergar a realidade de novas maneiras. O cinema utiliza a montagem para reorganizar o tempo e o espaço e os espectadores não vivenciam uma apresentação contínua como no teatro, mas assiste a uma sequência construída por enquadramentos, cortes e repetições, com câmeras que aproximam detalhes imperceptíveis a olho nu. Toda essa fragmentação visual treinou o olhar moderno para a velocidade. Hoje, essa lógica atinge níveis extremos com a edição digital já que consumimos vídeos curtos com montagem acelerada e cortes automáticos, aplicamos filtros e efeitos em tempo real nas redes sociais. Por fim, a tecnologia audiovisual molda nossa capacidade de atenção.
A sala de cinema já representou o ápice do consumo audiovisual. Hoje, as plataformas digitais transformaram radicalmente essa experiência e o público não precisa mais nem se deslocar até um local específico em horários determinados. Afinal, o consumo sob demanda permite assistir a filmes e séries em qualquer dispositivo, mas essa mudança intensifica a perda do contexto original de exibição que Benjamin descreveu. Atualmente, você pode pausar um filme para responder a uma mensagem no celular e pode assistir a um épico visual ou um evento ao vivo na pequena tela de um smartphone. Desse jeito, o acesso se tornou contínuo e onipresente. Para entender melhor como essas plataformas operam e democratizam o acesso, você pode explorar opções de streaming gratuito de filmes e séries.
As redes sociais transformaram qualquer usuário em um editor em potencial. Os memes exemplificam perfeitamente a reprodutibilidade técnica contemporânea porque transformam imagens fixas em materiais infinitamente editáveis e recombináveis e, assim, uma fotografia séria perde seu contexto original em poucas horas e uma cena dramática de filme vira uma piada viral com uma nova legenda. O remix e a apropriação dominam a comunicação digital já que a repetição exaustiva de uma imagem cria novos significados a cada compartilhamento e a autoria se torna coletiva e difusa já que ninguém sabe quem criou a primeira versão de um meme famoso. Benjamin analisou a perda de contexto das imagens reproduzidas. E memes levam essa perda de contexto ao extremo se destroem a aura original, mas criam uma nova forma de conexão social no que a imagem deixa de ser um objeto de contemplação e vira uma ferramenta de comunicação rápida.
A inteligência artificial generativa impõe um novo desafio teórico e, na época de Benjamin, a questão central envolvia a reprodução tecnológica de obras existentes, pois a câmera só copiava o mundo físico e o disco gravava a voz e os instrumentos humanos. Hoje, o problema se amplia consideravelmente considerando que sistemas de IA não apenas reproduzem o que já existe, mas também geram novas imagens e textos a partir de padrões aprendidos. Inclusive, analisam bilhões de obras anteriores para criar algo inédito, então precisamos diferenciar a reprodução técnica da geração automatizada já que a IA não fotografa a realidade, mas apenas sintetiza dados matemáticos. Benjamin não formulou uma teoria sobre algoritmos ou redes neurais, contudo, suas perguntas continuam válidas, afinal: o que significa criar arte quando uma máquina executa o trabalho técnico em segundos? A geração automatizada intensifica a crise da autenticidade e da autoria na cultura visual.
Essa pergunta provoca debates intensos entre artistas e tecnólogos. Se a aura depende da presença singular e da história material, a IA complica tudo. Uma imagem gerada por algoritmos não possui uma história física nem carrega as marcas do tempo ou o toque de um pincel se já nasce como um arquivo digital pronto para a replicação infinita. No entanto, algumas pessoas argumentam que o comando de texto carrega a intenção humana e a curadoria do usuário poderia conferir algum valor único ao resultado. Essa é a posição do Google, mas Benjamin provavelmente rejeitaria a ideia de uma aura em arquivos gerados em massa porque a IA maximiza o valor de exposição e elimina qualquer traço de valor de culto. E a imagem gerada serve para consumo imediato e descarte rápido e mesmo que impressione os olhos, raramente convida à contemplação mais profunda.
O ensaio de Benjamin possui uma dimensão política fundamental e já alertava sobre os perigos da estetização da política. O fascismo utilizava o cinema e as grandes marchas para hipnotizar as massas, transformavam a política em um espetáculo visual para evitar mudanças reais. Hoje, enfrentamos ameaças semelhantes com ferramentas muito mais poderosas. Por exemplo, deepfakes permitem criar vídeos falsos extremamente realistas de líderes políticos e a manipulação audiovisual afeta eleições e destrói reputações em poucas horas. A publicidade online também utiliza algoritmos para direcionar mensagens emocionais a públicos específicos e a estetização da política migrou dos comícios para os feeds das redes sociais. Portanto, a reprodutibilidade técnica facilita a disseminação de desinformação em escala global. Benjamin defendeu a politização da arte como resposta ao fascismo, mas, hoje, precisamos de uma alfabetização midiática crítica para sobreviver ao caos informativo.
A teoria de Benjamin não condena a tecnologia de forma absoluta e não enxergava a reprodução técnica apenas como uma ameaça à arte. Reconheceu o enorme potencial democrático das cópias e, nisso, a perda da aura possui um lado positivo inegável porque a reprodução liberta a arte dos espaços exclusivos da elite. Antes da fotografia, apenas os ricos frequentavam museus ou possuíam retratos. Hoje, qualquer estudante acessa o acervo digital dos maiores museus do mundo ou encontram registros importanes em sites como Internet Archive e, por bem, atualmente, a tecnologia permite a preservação de obras frágeis por meio de digitalizações em alta resolução e plataformas educacionais distribuem conhecimento em vídeo para regiões remotas. Então, a cópia digital facilita o estudo, a pesquisa e a inspiração e aeprodução técnica quebra o monopólio do acesso à cultura. Assim, Benjamin percebeu que a tecnologia possui uma força destrutiva e emancipadora ao mesmo tempo.
A cultura contemporânea respira por meio de cópias, edições e compartilhamentos. O pensamento de Walter Benjamin oferece as chaves para decifrar esse cenário e nos ajuda a questionar o valor da autenticidade em um mundo digital. Seus conceitos explicam por que transformamos imagens em ferramentas de comunicação instantânea. A passagem do valor de culto para o valor de exposição nunca foi tão evidente.
Enfim, a inteligência artificial apenas acelera um processo que começou com a fotografia. Quanto mais fácil se torna produzir e reproduzir imagens, mais precisamos de senso crítico e precisamos compreender de onde as imagens vieram e quem participou de sua criação. Também é preciso investigar por que atribuímos valor a determinadas versões e descartamos outras. Sem dúvida, a obra de arte na era digital exige um olhar atento e Benjamin continua atual porque nos ensina a enxergar a política por trás da tecnologia.
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